Amadeu Carvalho Homem, um dos investigadores mais interessantes do republicanismo português – e um dos cultores mais militantes do ideário republicano até aos nossos dias – escreveu, no seu Da Monarquia à República, um brilhante capítulo sobre as reacções populares ao Ultimato Inglês de 1890, provavelmente a primeira grande confrontação que os portugueses tiveram com o fenómeno do imperialismo enquanto fase superior do capitalismo. E perante a qual, incapazes de ripostar à razão da força britânica, desenvolveram um processo que nos nossos dias vemos novamente aparecer com roupagens iguais ou parecidas: consistiu essa reacção, primeiro, numa «garrida antecâmara de florilégios verbalistas e grandiloquências patrióticas sem alcance prático», seguida da criação de ligas, associações, e demais organizações patrióticas «sob o dogma espúrio da fórmula ‘nada de política’», e concluindo-se tudo numa progressiva erosão «de todos os gestos de desafronta, manifestações de impaciência, encenações de repulsa».
É interessante e muito similar ao que muitas vezes temos visto nos nossos dias esta reacção tríplice de rebelião «medularmente romântica», para retomar uma expressão ainda de Amadeu Carvalho Homem, contra a afronta externa, a consagração dessa revolta em movimentos despolitizantes ou pelo menos produtores de um discurso consensualista, sincretizante, sem evidente posicionamento ideológico (que está simplesmente «ao lado de todos», «ao lado das pessoas», «em defesa dos direitos»), e o inevitável esmaecimento e desaparecimento dessas organizações quando o fogo de palha da indignação se extingue, sem mais por onde arder. Giovanni Alves bem falava em tempos do episódio em que no dia 5 de junho de 2011, dia de importante eleição parlamentar em Portugal, a faixa na manifestação de jovens acampados diante da célebre catedral de Santa Cruz em Coimbra (Portugal), onde está enterrado o Rei Afonso Henriques, fundador de Portugal, dizia: “Não somos contra o Sistema. O Sistema é que é Contra Nós”. Neste dia, a Direita (PSD-CDS) derrotou o Partido Socialista e elegeu a maioria absoluta do Parlamento, numa eleição com quase 50% de abstenção e votos brancos. Enfim, órfãos da palavra radical, os jovens indignados não conseguem construir, no plano do imaginário político, uma resposta científica e radical, à avassaladora condição de proletariedade que os condena a uma vida vazia de sentido. A rebelião indignada é apenas isso, hoje como há 100 anos: indignação. Ora «a indignação é um estado de espírito, uma resposta encolerizada perante uma situação que colide com os valores morais do sujeito. É portanto algo de emocional, de visceral de quisermos,não dispondo da maturação, reflexão, e consolidação ideológica que sempre deve estar subjacente a um trabalho consequente de transformação social, já eu próprio escrevi. Vivemos num tempo que em muito se assemelha à época finissecular do séc. XIX português: um acúmulo de raiva, uma percepção aguda e desesperada da podridão de instituições e princípios, a pulsão instintiva para a sua destruição… e a ausência de qualquer quadro referencial alternativo ao vigente, de um caminho para fora do vigente. Pondo em linguagem clara e chã, neste momento temos uma situação em que cresce o desejo de punir quem faz estas políticas, em derramar sobre eles a fúria turbulenta dos milhares que à sua conta perderam emprego, casa, poder de compra, oportunidades de futuro. Muitos milhares, talvez mesmo milhões, trazem dentro deles o desejo pulsante – e pujante – de tirar desforço junto dos dirigentes políticos e dos grandes magnates portugueses pela sua situação, vingando-se do que lhes ocorreu. Mas essa raiva colérica, se satisfeita com umas quantas execuções bárbaras e linchamentos massivos, abria lugar a quê? Mesmo que seja necessária – e provavelmente será mesmo – à construção da sociedade socialista, que socialismo decorre dela se não houver consciência política?
O que temo que virá a acontecer em Portugal quando estas cerimónias de inconsequente desagravo como a citada acampada de Coimbra, mais as manifestações sem consequência prática organizadora ou estruturadora, os apelos ao respeito pela dignidade, a moralidade política, a ética, a justiça, etc., se patentearem na sua insuficiência para canalizar a bílis produzida em quantidades cavalares, é nada menos que o que aconteceu na sequência do exaspero finissecular: um tempo de inacreditável crescimento da violência política, com um Rei, um Presidente, e um Primeiro-Ministro assassinados, convulsões, ditaduras mais ou menos administrativas e mais ou menos longas no tempo, milícias de caceteiros, intervenções militares na política, perseguições a sindicatos, bombas para dar e vender, e tudo desembocando algures nos anos 20/30 com a construção de um Estado fascista que durou 50 anos. Regresso a Amadeu Carvalho Homem, deplorando que a «ausência de uma liderança política decidida, esclarecida, eficaz, ambiciosa» tivesse dado azo a que a ebulição colérica dos finais do séc. XIX se tornasse revolução, transformação social, e se tivesse escoado em gestos inúteis e quase patéticos como minutos de silêncio, subscrições quixotescas para reapetrechar a armada e o exército, panos negros envolvendo Camões, frustres tentativas de depositar junto dele uma coroa de flores debandadas com o apito de uma dúzia de guardas municipais. É deplorável que a raiva popular se concentre e vá esgotando em iniciativas sem seguimento, não logre ser convenientemente liderada, não encontre quem a encaminhe para um projecto de transformação social. Se esse trabalho de transposição da raiva para a política não for feito, aquela vai acumular-se e explodir seja em que sentido for. Designadamente, como Paulo Freire dizia, no da sustentação de líderes populistas por intermédio da actuação dos quais o oprimido pode sentir-se, por transferência, ele mesmo actuando. Impedir isto é, só pode ser, a estratégia dos comprometidos com a libertação popular. É nossa incumbência politizar a raiva popular.